Jorge Ribeiro - Presidente do FITEI

No final da primeira temporada do Teatro Livre, em 1905, Araújo Pereira e Luciano de Castro abandonaram esse projeto para fundar, com Simões Coelho, o Teatro Moderno, que ficou sediado no Teatro do Príncipe Real, à Rua da Palma, em Lisboa. O enquadramento teórico e artístico deste grupo não diferiu muito do que caracterizou o Teatro Livre: as referências estéticas eram comuns, radicando no naturalismo teatral de André Antoine. Assim historiografa Rui Pina Coelho, para quem os propósitos de democratização da arte teatral e o desejo de chegar às grandes camadas da população – uma população interrogadora, cujo esclarecimento é dever do Teatro – estiveram patentes na fórmula “Transformar pela Arte, redimir pela Educação”, de Luiz Francisco Rebello. Como tal, foram os problemas do homem comum os procurados nas dramaturgias escolhidas, com vista ao desenvolvimento de um espírito crítico que tornasse o público mais ativo nos destinos pessoais e coletivos da realidade em que se inserem.
O Novo Teatro Brasileiro, desenvolvido nos anos 60, também viria, uma vez extinta a censura oficial, impressionar um futuro projeto chamado FITEI. E, ano após ano, já lá vão quarenta e quatro, a sua moldura tem congregado confluências sociais, políticas e culturais que constroem um caminho sólido no estado artístico. O Mickery Theatre revolucionou, a partir dos Anos 70, a cena europeia. E o FITEI trouxe à Europa teatro de África e da América Latina.
Nunca foi fácil realizar este certame. Obtiveram-se, com identidade própria, momentos altos, muito altos e alguns frágeis ‑ como a vida é! O futuro deste festival passará sempre por uma força muito própria, cada vez mais escorada nos públicos jovens e num sólido comprometimento internacional dentro da expressão ibérica ‑ o relumbrante universo onde ele se move.
Viva mais um FITEI!


Gonçalo Amorim - Diretor Artístico do FITEI

Num mundo em insustentável mutação, a edição de 2020 do FITEI organizou-se em torno da ideia da sustentabilidade. Era urgente abordar a questão nas suas diversas e desafiantes vertentes: ambiental, política, individual, afetiva, sexual, mental. Fomos ao encontro de discursos de resistência, que questionavam e questionam o status quo lançando alternativas a modelos vigentes, procurando também ser sensíveis às questões da normatividade e da marginalização.
Prestamos, por isso, atenção a obras na linha do que a filósofa brasileira Márcia Tiburi chama de Sexologia Política. Na senda de Foucault – que apontava o sexo como dispositivo de poder – e atentando na efervescente emergência de novos discursos e corpos nos palcos de todo o mundo, trazíamos (e traremos) ao festival artistas que se erguem contra a desinformação, usando os seus corpos como símbolos de uma existência plural, em contracorrente com o conservadorismo.
Nunca pensámos que uma pandemia poderia vir a suspender o nosso festival em 2020 e a condicionar a sua 44ª edição em 2021, e que ao mesmo tempo desse uma nova pertinência aos temas e obras que tínhamos escolhido para a edição do ano transato. Para a edição de 2021 mantivemos todas as obras previstas, assim como os seus eixos temáticos, acrescentando algumas obras novas e umas quantas novidades. Talvez a novidade mais relevante será a componente digital com a novíssima plataforma FITEI DIGITAL, (parcialmente financiada pela Ágora E.M.) pioneira nas plataformas streaming dedicadas ao teatro em Portugal, onde além da exibição de muitas das obras teremos diversos conteúdos, que as complementam, numa constante atualização.
Assim sendo teremos uma programação híbrida com 14 espetáculos presenciais, e 10 on-line, além de contarmos com 7 estreias absolutas e 7 nacionais.
No espetáculo, Estado vegetal, juntamo-nos à dramaturga chilena Manuela Infante para pensarmos formas de habitar o planeta e questionarmos a nossa relação com as entidades vegetais. Assim como o faz a obra Selva Coragem do Teatro do Frio. A companhia mexicana Línea de Sombra reflete sobre as fronteiras – físicas e mentais – que separam o México dos EUA em Amarillo. Também MAPPA MUNDI, de Eduardo Breda e Joana de Verona, parte de relatos de pessoas em trânsito num mundo cada vez mais incompreensível.
Levaremos a cena a sustentabilidade da democracia através de obras como o seminal Museu vivo de histórias pequenas e esquecidas, de Joana Craveiro, que regressa ao FITEI, e Reconciliação, entrevista transatlântica em que Alexandre Dal Farra e Patrícia Portela nos falam de gestos de reconciliação entre Portugal, Brasil e África, resultado de uma residência artística no FITEI 2019. Contamos ainda com as jovens companhias Os Possessos, que releem manifestos pós-2000 na performance de Isabel Costa, Maratona de manifestos, e Diogo Freitas e Filipe Gouveia, que encenam Democracy has been detected, para a Momento - Artistas independentes. Rottweiller, com texto de Guillermo Heras e encenação de Ricardo Simões para o Teatro do Noroeste, relaciona fake news, violência e extrema-direita. Ou a estreia de Regresso do Futuro, de Igor Gandra, coprodução entre o Teatro do Ferro e o Teatro de Marionetas do Porto.
Interessa-nos também a sustentabilidade na esfera da intimidade, do corpo e dos afetos. A brasileira Renata Carvalho usa o seu corpo travesti como cobaia na experimentação a que chamou Manifesto transpofágico. Em Qué locura enamorarme yo de tí, a escritora e jornalista peruana Gabriela Wiener, encenada por Mariana de Althaus, abre-nos as portas à sua vida familiar poliamorosa em plena crise de casais. Ou como o premiado Stabat Matter de Janaina Leite, em que a artista se revela como uma das artistas mais ousadas originais da contemporaneidade teatral. Experimentamos também a partilha da intimidade das práticas artísticas na nova criação da colecionadora Raquel André, Coleção de artistas, também fruto de uma residência no FITEI 2019. Em residência artística estará André Amálio para a estreia de Perfect Match, recolhendo histórias de amor num tempo de migrações. Ou a estreia de Estrada de Terra de Tiago Correia, a Turma, que nos fala de questões prementes da sua geração.
A sustentabilidade mental é outro dos eixos e cruza diferentes espetáculos do festival: Artaud, do argentino Sergio Boris, construído a partir das cartas de Artaud ao seu psiquiatra; O Dia da matança na história de Hamlet, de Koltés, numa encenação de António Júlio para o TEP, questiona a “desrazão” de Hamlet enquanto máscara para vingar a morte do pai; perda e resiliência podem ser caminhos para um novo pensamento em Luto, da companhia Circolando, ou Gatilho da Felicidade de Ana Borralho e João Galante, um experimento para a vocalização do que os adolescentes de vários países sentem. O eixo continua ainda nas estreias de InFausto de Jorge Andrade/Mala Voadora, e dos criadores emergentes Paulo Mota, que pensa a possibilidade de comunidade em Um Jogo Bastante perigoso, e Raquel S., que encena amor.demónio, em coprodução com o TMP, sobre o enclausuramento de mulheres, obra que dialogará tematicamente com Santa Inés, da companhia galega Feroz, com texto de Lorena Conde e ideia original e interpretação de Inés Salvado.
A programação do 44 FITEI, tal como edições anteriores, abre-se, ainda, à inclusão de atores em formação, na secção O FITEI E AS ESCOLAS DO PORTO e aposta na formação de profissionais e estudantes de teatro nos workshops presenciais e materclasses on-line com o selo ISTO NÃO É UMA ESCOLA FITEI. Propõe ainda lançamentos de livros, conversas presenciais e on-line concertos entre outras atividades gratuitas para o grande público na secção FITEI ABERTO, onde encontramos Marcela Lucatelli, performer brasileira da expressão vocal e sonora, radicada na Dinamarca, que nos chega pelas mãos da nossa já histórica parceria com a Matéria Prima. Já os Favela discos, lançaram o seu novo álbum, em colaboração com a Circolando e o Criatório.
Continuamos a agradecer: a todos os nossos parceiros, (saudando a nova parceria com Viseu) desde os institucionais aos mais pequenos apoios, passando pelos artistas e pelas equipas, pois sem eles nada disto seria possível. Uma palavra também para a sempre atenta direção da Cooperativa FITEI e para todos os seus cooperantes, pilar fundamental deste projeto com 44 anos de existência.
Bem hajam e bom Festival!